O que há "do outro lado" da vida? Mesmo sendo inevitável, a idéia de que um dia vamos morrer causa desespero na maioria das pessoas.
A necessidade de controlar todas as situações, até a própria morte, o sentimento de onipotência e o apego excessivo à vida são algumas
das razões que dificultam a aceitação do fim da existência, dizem especialistas."Temos um desejo de imortalidade e de realizar tudo
o que gostaríamos. Quando perdemos alguém, constatamos que nem todas as vontades são plenamente realizáveis em função dos limites da
realidade e do tempo, e a maior demonstração disso é a morte", diz a psiquiatra Eva Zoppe, profissional do Departamento de Psicoterapia
do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo).
Cada vez mais, a morte é um mistério. É o que diz o antropólogo Acácio Almeida Santos, para quem nos últimos anos houve um processo pelo
qual a morte, que já era um tabu, passou a ser ainda mais escondida. "Dentro do processo de afastamento, criamos recursos para fingir que a
morte não existe. Usamos esse termo para intensificar os sentimentos [morrendo de fome, morrendo de saudade], mas não para definir o que ela
realmente representa. Então dizemos 'ele descansou', 'foi para o céu', 'não está mais conosco'", afirma.
A aceitação da morte é diferente de acordo com a crença religiosa e até mesmo com a filosofia de vida própria de cada cultura. A idéia de
que a morte pode não ser o fim de tudo, mas apenas uma passagem, torna a relação com o tema um processo mais racional e, conseqüentemente,
menos doloroso.
A professora de psicologia da morte Maria Júlia Kovacs, do Instituto de Psicologia da USP, diz que o pensamento da sociedade ocidental assemelha
a morte a um fracasso. "A morte é considerada como algo que deve ser combatido a todo custo", diz.
Mas se a dor da perda não pode ser evitada nem totalmente abstraída, a palavra-chave para enfrentar melhor essa realidade é preparação.
"Na medida do possível, devemos nos preparar para a possibilidade de o outro morrer, principalmente quando alguém está doente ou muito velho",
diz o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria e chefe da psiquiatria da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), Miguel Roberto Jorge.
A professora de psicologia clínica da pós-graduação da PUC (Pontifícia Universidade Católica) e coordenadora do LELU (Laboratório de Estudos e
Intervenções sobre o Luto), Maria Helena Pereira Franco, diz que é possível preparar-se até para aceitar a própria morte, o que costuma
acontecer com pacientes que têm doenças incuráveis.
"Preparar-se para a morte é viável. Trabalho muito com pacientes terminais que têm esse objetivo e obtêm resultados interessantes.
Conseguem se despedir, agradecer e perdoar", afirma.
E para não piorar ainda mais a sensação da perda, é importante aproveitar cada momento de convivência ao lado das pessoas queridas.
Quem vive adiando visitas ou é negligente costuma sentir a perda de maneira mais dolorosa. "Há quem sofre muito com a morte do outro
porque sente culpa por não ter dado tudo o que ele merecia ter recebido", diz a psicóloga Mercedes Marin Pedroso.
Mas quando a morte é repentina e atinge pessoas jovens e saudáveis não há preparação que sublime o sentimento de perda. Com isso, a
percepção de que os projetos de vida foram interrompidos pode causar frustração e revolta.
"A morte inesperada pega todos despreparados. É difícil aceitar que você não vai ver mais... A morte de jovens, de certa maneira,
quebra o que se espera como sequência natural. Tudo que tem ordenação é algo a que se pode adaptar mais facilmente. Diante de incertezas,
há menos meios para lidar com isso", afirma Miguel Roberto Jorge, da UNIFESP.
Fonte: Folha Online